RESENHA CRÍTICA DA OBRA “CULTURA- UM CONCEITO ANTROPOLÓGICO”

LARAIRA , Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 14 ed.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1932.

A obra de Roque de Barros Laraira, Cultura – um conceito antropológico, de 1932, é dividida em duas partes: da natureza da cultura ou da natureza à cultura e como opera a cultura, respectivamente; e põe em pauta a discussão a cerca do entendimento que se tem de cultura, sua manifestação, percepção e interferências no modo – atitudes, comportamentos, etc – de viver de tribus, grupos e sociedades passadas e presentes ao longo de onze capítulos. Como base para suas observações e análises, Roque Laraira faz um apanhado histórico da dinamicidade de fatos e os analisa sob a perspectiva de estudiosos que se deram ao trabalho de estudar tal tema em discussão sob vários ângulos (histórico, antropológico, biológico e geográfico), dentre outros, deram-se a este ofício: Heródoto de Éfeso, José de Anchieta, John Lock, Jacques Turgot, Jean Jacques Rousseau e, não menos ou mais importante que os demais, mas, que se destaca por ter dado um caráter particular e ao mesmo tempo ter encetado e impulsionado a apreciação do conceito cultura, Edward Tylor, o responsável pela primeira definição de cultura do ponto de vista antropológico.

Abstrai-se dessa obra que a principal idéia discorrida ao longo de seus onze capítulos é o próprio conceito de cultura, as primeiras tentativas através das manifestações iluministas – carregadas de uma visão etnocêntrica – e o despertar de interesse por uma compreensão mais universal que satisfizesse, levasse, à compreensão do paradoxo da enorme diversidade cultural da espécie humana despertada nesses e nos modernos estudiosos do tema. Assim sendo, percebe-se que a elucidação de cultura no que tange à busca pela necessidade humana de se entender e compreender aquilo que a cerca é a temática basilar e fundamental que norteia e dirige a discussão de Laraira com vistas, meramente modestas, didaticamente falando, de contribuir com a formação inicial de estudantes de antropologia e de outras ciências sociais, mas que por ventura, pela sua modéstia inicial, esse não conseguisse, ainda, imaginar o quão importante se faria seu trabalho para impulsionar novos estudos e discussões concernentes a essa mesma abordagem, como se faz verdade hodiernamente.

Buscando desdobrar mais, aprecia-se, agora, as observações que mais clareiam e sustentam as ideias contidas nas primeira e segunda partes do livro. Faz jus ao corpo da obra a frequente necessidade de se ater à cultura, refere-se a conceito, em sua origem e desenvolvimento para, depois, adentrar em outras questões que sempre suscitaram curiosidade no homem: existe um determinismo biológico ou geográfico que condiciona pessoas, grupos (indiferentemente) a se comportarem da forma como se comportaram ou se comportam? De forma a descortinar essa implicância, Roque Laraira, de forma clara, fundamentada e facilmente entendível, se volta para o demandado questionamento afirmando que os caracteres genéticos não são determinantes da cultura, i.e, as diferenças genéticas não reafirmam as diferenças culturais.

Já ao se voltar para a influência do determinismo geográfico sobre as ações humanas, revela-nos este que inúmeros antropólogos negaram esse determinismo, mas que não obstante perceberam que existe certa influência deste sobre os fatores culturais, e que estas são muito diversas. Ou seja, que é difícil determinar uma característica universal a partir de uma análise isolada, fala-se de um caso particular, o que se configuraria como uma indução inconsequente, pois é possível de existir uma grande diversidade cultural em um único ambiente, o que refuta um determinismo propriamente dito.

Uma abordagem que consegue intentar a revelar o grande valor da cultura para a vida humana, no que se refere à característica diferencial, é a abstração, através de observações, que conduziram ao entendimento da lógica que permeia os sistemas culturais. Desdobra-se Laraira que cada sistema cultural possui uma lógica própria, e que enganoso se torna pensar de forma diferente, agindo assim, estaria ocorrendo uma visão de etnocentrismo, o que revela uma ignorância humana, muito presente nos antigos e ainda presente, infelizmente, em povos atuais, da sobreposição de um sistema cultural ao outro. E que o ato de considerar-se superior é uma visão condicionada pela cultura, uma vez que esta se apresenta como uma lente, direcionando um olhar único e particular desse mesmo sistema, o que acaba a levar o homem ao cômodo modo de achar seus comportamentos, próprios de sua cultura, os mais adequados e necessários.

Indispensável se torna a apreciação do todo que comporta essa obra com investiduras de cunho apreciativo ou depreciativo de minúcias que ora despertam apenas curiosidade ora requerem a tomada de posicionamento.

A obra possui uma disposição estrutural que corrobora para uma boa localização de seus conteúdos, uma vez que se divide em duas grandes partes, e, que estas comportam outras menores, capítulos, os quais conseguem levar a essência, a ideia motora da parte, dando uma praticidade sumário contributiva. A meu ver, a obra coere para uma compreensão global e detalhada do todo, contribuindo de forma grandiosa para uma sequência lógica de ordenamento das ideias primárias e secundárias que se percebe no decorrer das discussões.

Com ideias bem ordenadas e trabalhadas, o que cria um ambiente muito propício ao captar ideário, Roque Laraira trata do assunto com clareza e estilo. A clareza do ator é notória, com uma linguagem acessível a qualquer leigo, com quase nada de terminologia técnica e/ou muito rebuscada, a leitura não se torna cansativa e nem preguiçosa, o que aumenta a atenção do ouvinte leitor e contribui para a uma assimilação mais rápida.

O estilo do mesmo se torna perceptível quando este trata do assunto de forma particular, i.e, é como se o autor estivesse a ministrar aula, explicando um assunto a um grupo de alunos, pois ao avançar no assunto, tenta de forma explícita relacionar o novo ao anteriormente discutido; essa atitude reforça, traz o leitor para a discussão e inconscientemente faz este captar as particularidades de cada abordagem nova de forma muito tranquila. É assim, com toda essa forma fácil, cativante, apreciativa, exemplificada e bem associativa ao trabalhar cultura que o autor consegue ser original e, também, alcançar sua premissa inicial, a de contribuir para a formação de estudantes de antropologia e outros cursos da área de ciências sociais.

Não tenho dúvidas do quão grande fora a contribuição dessa obra para aqueles priorizados pela mesma, alude-se aos estudantes de ciências sociais. Como estudante da mesma área de conhecimento, reafirmo, assim como muitos outros estudantes, creio eu, o quão contributo fora a obra.

Revelando a importância e contribuição desse trabalho de Laraira para o meio científico, destaco sua perspicácia em tratar de um assunto, ainda em 1932, que se demonstra tão corrente ainda nos dias atuais, (re) afirmando que o valor de cientificidade de sua obra não caiu em desuso e nem foi ultrapassada, observa-se, contribuindo muito para a continuidade de pesquisas e estudos sobre cultura, e aprimoramento da visão de mundo de inúmeros estudantes e curiosos interessados a refletir sobre os fenômenos sociais.

Eis, por fim, a razão de Roque de Barros Laraira ter se dado ao tema em pauta, a revelação das particulares dos sistemas culturais, da forma humana de atuar e ser percebida, da necessidade de mostrar ao homem inocorrências do crescimento e desenvolvimento conflitado com uma visão de mundo desconforme aos anseios próprios e naturais da espécie humana, levando-nos a conflitos de todos contra todos pela presença de um olhar mesquinho de mundo.

Palavras-chave: Cultura, sociedade, relações humanas.

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